Pokémon e Convulsão

Ao ligar o videogame é provável que você encontre um alerta para pessoas com epilepsia conforme Figura 1.  Você sabe por quê? Antes de conversarmos o tema, trago um caso interessante que aconteceu no Japão em 1997.

Figura 1: tela de abertura do Playstation 3 com advertências para epilepsia fotossensível.

 

O desenho animado Pocket Monster (Pokémon) sempre foi muito popular entre os japoneses. Após um determinado episódio, acompanhado por mais de 7 milhões de pessoas, houve registro de convulsões envolvendo em torno de 800 crianças. Aproximadamente, 25% delas já possuíam o diagnóstico de epilepsia, no restante foi a primeira crise. As convulsões aconteceram em uma cena, que durou apenas 4 segundos, na qual houve um piscamento de 12 Hz de luzes vermelhas. Estudos revelaram que cerca de 1/3 das crianças que tiveram a primeira crise durante o desenho apresentaram novas crises posteriormente. Sendo, portanto, diagnosticado epilepsia nos pacientes. O restante das crianças não apresentou novas crises.

Esse fenômeno aponta para as crises epilépticas reflexas, ou seja, crises desencadeadas por estímulos externos ou atividades cognitivas, segundo a Liga Internacional contra Epilepsia, e ocorrem em aproximadamente 7% das epilepsias. Entre os estímulos mais comuns estão os luminosos, auditivos (músicas), térmicos (água quente sobre a cabeça) e tarefas cognitivas (jogar xadrez, leitura, cálculo, escrita).

A convulsão reflexa por fotossensibilidade (propensão a crises induzidas pela luz) é a mais comum. Possui prevalência de 1 caso para cada 4000 pessoas, acometendo com mais frequência crianças e adolescentes entre 3 e 19 anos, numa proporção maior em meninas. A fotossensibilidade é uma característica geneticamente determinada que pode passar assintomática ao longo da vida ou manifestar-se em crises epilépticas.  Estudos evidenciam que luzes piscantes, de cor vermelha (vermelho >outras cores), em uma frequência de 10 a 25 Hz, com formas geométricas diversas, visualizadas com os dois olhos (binocular >monocular) estão mais comumente associadas a convulsão em pessoas predispostas.

Figura 2: Trecho do episódio do Pokémon responsável pelo desencadeamento das convulsões nas crianças predispostas.

 

Figura 3: Atividade epiléptica no eletroencefalograma em paciente com foto sensibilidade enquanto jogava vídeo game.

 

Em casos de epilepsia fotossensível, alguns cuidados podem evitar o aparecimento de crises durante o uso de vídeo games e tv:

  1. Deixe o ambiente iluminado.
  2. Mantenha uma distância de 2 metros da tela.
  3. Evite o uso prolongado. A cada hora de uso dê um intervalo de 15 minutos.
  4. Caso se sinta mal (tontura, náuseas ou “choquinhos” mesmo que inespecíficos) pare o uso imediatamente.
  5. Não assistir/jogar quando estiver cansado ou privado de sono.
  6. Cobrir um dos olhos enquanto joga.

 

O diagnóstico de crises reflexas se baseia na história clínica do paciente. O eletroencefalograma serve para orientar o diagnóstico, sendo possível provocar a atividade anormal através de provas de ativação. Com o tratamento adequado é possível controlar as crises na maioria dos casos. Ao apresentar crises durante a TV, videogames ou celulares, uma avaliação com neurologista é essencial.

Referências:

1. Okudan ZV, Özkara Ç. Reflex epilepsy: triggers and management strategies. Neuropsychiatr Dis Treat. 2018; 14:327-337. Published 2018 Jan 18.

2. Okumura, A., Watanabe, K., Negoro, T., Ishikawa, T., Ishiguro, Y., Takenaka, J. and Takada, H. (2005), Epilepsies after Pocket Monster Seizures. Epilepsia, 46: 980-982

3. Ishida, S., Yamashita, Y., Matsuishi, T., Ohshima, M., Ohshima, H., Kato, H. and Maeda, H. (1998), Photosensitive Seizures Provoked While Viewing “Pocket Monsters,” a Made-for-Televison Animation Program in Japan. Epilepsia, 39: 1340-1344

4. Shoja, M.M., Tubbs, R.S., Malekian, A. et al. Video game epilepsy in the twentieth century: a review. Childs Nerv Syst 23, 265–267 (2007).

Post anterior
Você conhece os sintomas da doença de Parkinson?
Próximo post
Paralisia facial: conheça mais sobre essa patologia