Afinal, o que é afasia?

Recentemente, foi divulgada a notícia de que o ator Bruce Willis iria se afastar das telas por causa de afasia. Diante da repercussão acerca do tema, esta postagem visa esclarecer e trazer maiores informações sobre esse termo.

Afinal, o que significa afasia? Afasia é a perda total ou parcial da capacidade de produzir e entender a linguagem. Isso acontece quando o cérebro sofre algum tipo de dano. Assim como uma febre, a afasia é um sintoma que pode ocorrer em várias doenças, como: acidentes vasculares cerebrais, tumores, demências, traumas, epilepsia (síndrome de Landau-Kleffner), entre outras. Na história do paciente, a evolução da afasia dá fortes indícios do que pode ser a causa. Por exemplo, a evolução de um paciente que estava falando normal e subitamente fica afásico pode sugerir o diagnóstico de um acidente vascular cerebral.

Os centros de linguagem clássicos estão localizados no hemisfério cerebral esquerdo em 99% dos destros e em 65% dos canhotos. No entanto, evidências demonstram alguma participação na linguagem de redes neurais nos dois hemisférios cerebrais.  As áreas anteriores da linguagem (figura 1) servem aos aspectos expressivos, ou seja, armazenam informações de como os músculos devem contrair para expressão da linguagem (fala e escrita). Já as áreas posteriores servem aos aspectos sensoriais relacionados à percepção e compreensão da linguagem.

Figura 1: Áreas cerebrais responsáveis pela linguagem (em amarelo e vermelho escuro). B – área de Broca/ W – área de Wernicke / EC – Centro da escrita de Exner. – Exame neurológico, 7ed.

 

 

A função da linguagem é avaliada tipicamente em seis componentes: fluência, compreensão, nomeação, repetição, escrita e leitura. O médico neurologista geralmente utiliza-se de testes específicos para avaliação de cada componente. Dessa forma, é possível classificar a afasia. O modelo de Wernicke-Geschwind (classificação de Boston) reconhece 8 tipos de afasia baseadas nesses seis componentes, conforme exemplos abaixo:

-Afasia de Broca (“não fluente”): é provocada por lesão na área de Broca (vide figura 1 – B). Pessoas com esse tipo de afasia podem compreender o que é dito ou escrito, mas possuem problemas para escrever e falar. O paciente tem ciência do seu déficit e isso gera grande angústia.

-Afasia de Wernicke (“fluente”): é provocada geralmente por lesão na área de Wernicke (vide figura 1 – W). Pessoas com esse tipo de afasia não conseguem entender o que é dito ou escrito, nem autoavaliar o que estão falando. Produzem um discurso que não faz sentido e palavras inventadas.

-Afasia global: pessoas com essa afasia não conseguem falar ou entender a linguagem escrita ou falada.
A principal causa de afasia é o acidente vascular cerebral. Esta é uma emergência neurológica, necessitando de diagnóstico e tratamento precoce. Devido à elevada frequência e facilidade na percepção, este déficit está presente nas cartilhas destinadas ao público geral sobre o AVC (Figura 2). O controle de fatores de risco, como hipertensão, diabetes, tabagismo, sedentarismo e obesidade, ajudam a prevenir o AVC e afasia.

 

Figura 2: sinais precoces do AVC (Fonte: Cartilha – AVC)

 

 

Dr. Marcillio Bezerra
Neurologista e Neurofisiologista Clínico
CRMMA 11480
RQE 4368 / 4369

Referências:
1.Clark, G., Mendes, M. Aproach to the patient with aphasia. Uptodate, 2022.
2.Campbell, W. W. DeJong – O exame neurológico. 7° edição. Rio de Janeiro: Guanabara-Koogan, 2014.
3.Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Especializada. Manual de rotinas para atenção ao AVC / Ministério da Saúde, Secretaria de Atenção à Saúde, Departamento de Atenção Especializada – Brasília: Editora do Ministério da Saúde, 2013.

Em 16 de janeiro de 2023, a família de Bruce Willis anunciou que ele havia sido diagnosticado com demência frontotemporal. Esta é uma doença neurodegenerativa caracterizada por degeneração dos lobos frontais e temporais do cérebro. Em torno de 25% dos pacientes com a doença são causados por herança genética (autossômica dominante). As principais alterações clínicas iniciais são mudanças no comportamento social e afasia. Possui a tendência de progressão mais rápida que doença de Alzheimer. A sobrevida média é entre 8-10 anos. Quando associado a doença de neurônio motor a sobrevida é de 2 anos. Não há tratamento curativo disponível atualmente. Estudos para tratamento da condição estão em andamento e incluem: anticorpo anti-tau, estabilizadores de microtúbulos, medicações direcionadas para as mutações genéticas causadoras da doença. Esta postagem em breve pode necessitar de atualização.

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